1º de Maio: entre o trabalho e o sujeito

O Dia do Trabalhador, celebrado no dia 1º de maio, tem suas origens nas lutas operárias do final do século XIX, marcadas por reivindicações por melhores condições de trabalho, redução da jornada de trabalho e dignidade. Mais do que uma data comemorativa, trata-se de um convite à reflexão sobre o lugar do trabalho na vida contemporânea.
Se, por um lado, o trabalho se configura como meio de subsistência, por outro, ele ocupa uma posição central na construção subjetiva. Como já indicava Freud (2011), ao situar o trabalho como um dos pilares da vida em sociedade, ao lado do amor, é nele que o sujeito busca reconhecimento, pertencimento e formas de inscrição no laço social.
No entanto, essa relação não é isenta de conflitos. Compreende-se que o trabalho é atravessado, isto é, influenciado pelo desejo e pelo inconsciente. As escolhas profissionais, os impasses cotidianos e as formas de sofrimento no trabalho não podem ser reduzidos a aspectos puramente objetivos ou organizacionais. Há algo da ordem do sujeito que insiste, algo que escapa às normativas e que se manifesta nas repetições, nos sintomas e nas formas singulares de relação com o fazer.
No campo da Psicodinâmica do Trabalho, Christophe Dejours (1992) contribui de maneira decisiva ao evidenciar que o trabalho pode ser tanto fonte de prazer quanto de sofrimento. Para o autor, o sofrimento emerge quando há um descompasso entre as exigências da organização e a possibilidade de o sujeito exercer sua inteligência prática, sua criatividade e sua autonomia. Quando não há espaço para elaboração e reconhecimento, o sofrimento tende a se intensificar, podendo levar ao adoecimento psíquico.
Na contemporaneidade, esse cenário se agrava com a intensificação do trabalho, a precarização dos vínculos e a exigência constante por desempenho. A lógica produtivista, muitas vezes, desconsidera os limites subjetivos, promovendo um ideal de trabalhador sempre disponível, eficiente e adaptável.
É importante destacar que esses atravessamentos não se dão de maneira homogênea. Mulheres ainda enfrentam desigualdades estruturais no mundo do trabalho, como sobrecarga decorrente da dupla jornada e menor reconhecimento profissional. Homens, por sua vez, frequentemente se veem capturados por ideais de desempenho e produtividade que dificultam o reconhecimento do sofrimento, reforçando silenciamentos que também impactam sua saúde mental.
Diante disso, a Psicanálise em diálogo com a Psicodinâmica do Trabalho e a Psicologia Organizacional e do Trabalho aponta para a necessidade de criar espaços de escuta que considerem a singularidade do sujeito. Mais do que adaptar o indivíduo às exigências institucionais, trata-se de problematizar as próprias condições de trabalho e seus efeitos.
Assim, o 1º de maio nos convida a sustentar uma reflexão crítica: de que modo o trabalho tem operado em nossas vidas? Tem sido espaço de criação e reconhecimento ou de silenciamento e desgaste? Entre o prazer e o sofrimento, é fundamental recolocar o sujeito no centro das discussões sobre o trabalho.
Que essa data possa, portanto, não apenas rememorar conquistas históricas, mas também abrir caminhos para práticas que afirmem a dignidade, a escuta e a possibilidade de existência no trabalho.
Referências:
BRASIL ESCOLA. Dia do Trabalho: origem e história. Disponível em: https://0brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-do-trabalho.htm. Acesso em: 21 abr. 2026.DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1992.DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, São Paulo, v. 14, n. 3, p. 27–34, 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/prod/a/V76xtc8NmkqdWHd6sh7Jsmq/?format=pdf. Acesso em: 21 abr. 2026.FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
